
Vestido a caráter, com quimono, chapéu de palha e microfone na mão, o danado voltou falando pelos quatro cantos da floresta. E, pelo jeito, a viagem internacional não lhe fez bem para o silêncio!
— Alô, bicharada! Atenção, macacada! Plantão internacional! Flávio Bolsonaro saiu na frente de Lula no Japão! E tem mais: também venceu em outros países asiáticos onde os resultados foram divulgados!
O macaco carioca, que estava pendurado num galho, quase caiu de costas.
— Ô, papagaio! Você atravessou o mundo para trazer notícia ou foi fazer campanha com passagem paga?
O emplumado ajeitou o quimono, bateu as asas e respondeu:
— Respeita o correspondente internacional! Eu fui atrás da notícia! Se o resultado agrada a uns e desagrada a outros, aí já não é problema do meu bico!
A onça-pintada, que escutava tudo debaixo de uma árvore, soltou um rugido:
— Menos, papagaio! Você tem fama de mentiroso, mas não precisa inventar vitória antes de a urna terminar de falar!
A bicharada caiu na gargalhada.
DO JAPÃO PARA BRASÍLIA: A COROA JÁ TEM DONO?
O papagaio, que não perde uma oportunidade de aparecer, abriu um mapa do planeta e começou a discursar:
— Minha gente, os resultados do Japão deram uma vantagem expressiva a Flávio Bolsonaro entre os brasileiros que votaram naquele país! Em outros pontos da Ásia, também houve vitórias dele. Mas Lula venceu em outros países! Portanto, não me venham dizer que o mundo inteiro já escolheu seu candidato!
A raposa, velha conhecida dos bastidores eleitorais, apareceu com um sorriso desconfiado.
— Eu já vi muito candidato ganhar eleição no gogó, perder no voto e terminar a noite procurando explicação para o resultado!
O tucano, metido a cientista político, emendou:
— E eu já vi candidato prometer tanto que, se cumprisse metade, a floresta virava um paraíso! Tinha sombra para todo mundo, água gelada nas tocas e até energia elétrica para espantar o calor!
A capivara interrompeu:
— Pois eu quero saber é quem vai baixar o custo de vida, melhorar a saúde, cuidar da educação e deixar o povo trabalhar em paz! Porque discurso bonito não enche barriga!
Foi aí que o papagaio ficou sério por alguns segundos.
— A capivara tem razão! O eleitor pode até gostar de uma boa briga política, mas, quando chega a conta no fim do mês, não adianta mostrar fotografia de comício!
O MACACO VELHO NÃO PÕE A MÃO EM CUMBUCA!
Enquanto a floresta fervia, o macaco carioca já queria organizar a festa da vitória.
— Vamos preparar o trono! Quero faixa, banda, fogos e banana para todo mundo!
A onça olhou atravessado.
— Você está maluco, macaco? Já contou os votos do Brasil inteiro?
— Ainda não — respondeu ele, coçando a cabeça.
— Então guarde os fogos! Macaco velho não põe a mão em cumbuca, e bicho esperto não confunde torcida com resultado!
A raposa aproveitou para dar sua alfinetada:
— Na política, meu caro, tem gente que comemora pesquisa como se fosse diploma de posse e trata promessa de campanha como escritura de cartório!
O papagaio não se conteve:
— Kkkkkkk! Essa foi na jugular! Se promessa eleitoral valesse dinheiro, tinha candidato comprando o planeta inteiro e ainda sobrava troco para construir uma estrada até Marte!
A bicharada quase derrubou a árvore de tanto rir.
E O RESTO DO MUNDO, PAPAGAIO?
O repórter abriu as asas, apontou o microfone para o planeta e anunciou:
— Ainda estamos acompanhando os resultados! O Japão é uma parte dessa história, não o Brasil inteiro! A votação no exterior pode render manchetes, mas quem vai decidir a eleição brasileira é o conjunto dos votos apurados!
A capivara, desconfiada como sempre, perguntou:
— E você, papagaio, aposta em quem?
O danado olhou para a direita, olhou para a esquerda e respondeu:
— Eu aposto na minha sobrevivência! Se anunciar vitória antes da hora, um lado me chama de mentiroso; se anunciar derrota, o outro quer arrancar minhas penas!
A onça caiu na risada.
— Pelo menos dessa vez você falou uma verdade!
NO REINO DA POLÍTICA, QUEM PAGA A CONTA É O POVO!
No fim da tarde, a floresta continuava dividida. De um lado, os apoiadores de Flávio Bolsonaro comemoravam os resultados favoráveis no exterior. Do outro, os simpatizantes de Lula mantinham suas esperanças.
No meio da confusão, a capivara resumiu a situação:
— Pode ganhar quem for. Depois da eleição, quero ver quem vai cuidar dos problemas que nós enfrentamos todos os dias!
A onça concordou. A raposa guardou seus palpites. O macaco desceu do galho para procurar comida.
E o Papagaio Mentiroso encerrou o plantão com sua frase mais provocadora:
— Bicharada, anotem aí! Antes da eleição, todo candidato quer ser rei. Depois da eleição, o povo quer saber se escolheu um governante ou apenas um novo morador do poleiro!
E saiu voando, gritando para quem quisesse ouvir:
— Boraaaaa, floresta! A urna ainda tem a palavra! E, enquanto os políticos disputam a coroa, o povo continua esperando o espetáculo virar resultado!
MORAL DA HISTÓRIA
Na política, promessa voa alto, discurso faz barulho e torcida não falta. Mas a verdade aparece quando os votos são contados e o trabalho começa.


