Etanol de milho já supera 10 bilhões de litros e faz usinas de cana instalarem novas plantas para manter produção entre dezembro e março

Etanol de milho ganha espaço no Brasil e leva usinas de cana a instalar plantas integradas para manter a produção durante a entressafra.

A possibilidade de manter uma fábrica funcionando justamente quando a moagem da cana diminui está levando empresas do setor sucroenergético a incorporar o etanol de milho aos complexos industriais já existentes. Em vez de deixar parte da estrutura ociosa entre dezembro e março, usinas começam a instalar unidades dedicadas ao cereal ao lado das plantas tradicionais, aproveitando equipamentos, equipes e instalações que já fazem parte da operação.

 

A tendência aparece em novos contratos do setor de engenharia. A Aplus, de Blumenau, em Santa Catarina, trabalha atualmente em dois projetos desse modelo, um para a Aroeira e outro para a Atvos. Outros cinco empreendimentos estão em negociação com grupos do Sudeste, mas os nomes permanecem sob sigilo.

Milho permite estender a atividade industrial para além da safra da cana

A diferença entre as duas matérias-primas ajuda a explicar o interesse por unidades integradas.

 

Depois de colhida, a cana-de-açúcar precisa seguir rapidamente para processamento. Quando a safra termina, a produção tradicional perde matéria-prima e a fábrica reduz ou interrompe parte das atividades.

O milho possui uma característica diferente: pode ser estocado e utilizado gradualmente. Isso permite planejar a fabricação do combustível durante meses em que a cana já não está sendo processada.
 

Alessandro Salvador, sócio-fundador e diretor comercial da Aplus, aponta ainda que uma operação integrada aproveita recursos que já existem na unidade principal, entre eles laboratórios, armazenagem e estruturas administrativas.

Outro elemento da combinação está no uso energético. O bagaço remanescente do processamento da cana pode alimentar as caldeiras responsáveis pela produção do vapor e da energia necessários à planta de cereal.

Instalar planta ao lado de usina existente pode reduzir investimento

A integração também pode alterar o tamanho do desembolso necessário para colocar uma nova fábrica em funcionamento.

Salvador cita um caso no qual uma unidade de etanol construída desde o início demandou aproximadamente R$ 1,4 bilhão. Posteriormente, uma planta destinada ao milho foi adicionada ao mesmo complexo por cerca de R$ 900 milhões.

 

A diferença está relacionada ao aproveitamento de parte da infraestrutura já disponível.

Entre os elementos que tornam esse modelo atraente estão:

  • utilização da mesma estrutura administrativa em diferentes períodos do ano;
  • possibilidade de armazenar a matéria-prima utilizada na planta de milho;
  • aproveitamento energético do bagaço de cana;
  • compartilhamento de áreas laboratoriais e de armazenagem;
  • continuidade da produção durante meses de menor atividade da cana.

Produção saltou de milhões para mais de 10 bilhões de litros

A expansão industrial acompanha um crescimento acelerado da participação do cereal no mercado brasileiro.

Na safra 2014/15, o país produziu apenas 80 milhões de litros de etanol a partir do milho, segundo a União Nacional do Etanol de Milho.

Seis safras depois, em 2020/21, o volume já havia alcançado 2,6 bilhões de litros.

 

O salto continuou. No ciclo 2025/26, encerrado em março, a produção chegou a 10,17 bilhões de litros, conforme dados da Conab. Frente à safra anterior, houve avanço de 29,8%.

Esse volume correspondeu a pouco mais de 27% dos 37,5 bilhões de litros de etanol produzidos no Brasil no período, que marcou um recorde da série histórica.

Centro-Oeste concentra produção de etanol de milho

A disponibilidade do cereal explica por que boa parte das unidades está instalada no Centro-Oeste.

A produção se concentra principalmente em Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, estados nos quais a segunda safra de milho amplia a disponibilidade de matéria-prima para as indústrias.

A perspectiva é de continuidade desse crescimento.

Para o ciclo 2026/27, a Unem estima uma produção próxima de 12 bilhões de litros. Em um horizonte mais longo, o presidente da entidade, Guilherme Nolasco, calcula que o país poderá atingir aproximadamente 20 bilhões de litros em 2032.

 

Caso esse avanço ocorra, o etanol de milho passará a ocupar uma parcela ainda maior dentro da oferta nacional do biocombustível.

Produção contínua reduz diferença entre safra e entressafra

A mudança não fica restrita ao funcionamento das usinas.

Tradicionalmente, os meses sem moagem de cana exigiam maior utilização dos estoques formados anteriormente. Com menor entrada de combustível novo no mercado, os preços podiam apresentar maior oscilação no começo de cada ano.

As plantas de milho modificam essa dinâmica porque conseguem permanecer em atividade durante períodos nos quais a produção baseada na cana diminui.

Com mais combustível chegando ao mercado ao longo do calendário, a distância entre a oferta da safra e da entressafra tende a ficar menor. Analistas do setor avaliam que esse movimento pode ajudar a reduzir a volatilidade e prolongar os períodos em que o etanol consegue competir com a gasolina.

 

Oferta adicional também influenciou aumento da mistura na gasolina

Segundo Guilherme Nolasco, o avanço da produção proporcionado pelo etanol de milho também criou condições para elevar a presença do etanol anidro na gasolina sem colocar o abastecimento sob pressão.

A mistura obrigatória passou para 32%, proporção conhecida como E32.

O aumento da demanda industrial também chegou ao campo. Com as usinas consumindo volumes maiores do cereal, a procura destinada à fabricação de biocombustível passou a contribuir para a sustentação dos preços recebidos pelos produtores de milho.