Após resultado do 1º turno das eleições, como os mercados vão reagir nesta segunda?

O avanço do candidato bolsonarista foi acima do esperado e acendeu expectativas do mercado de uma vitória de direita

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais confirmou, em parte, projeções já apresentadas nas pesquisas nas últimas semanas. Flávio Bolsonaro recebeu 47,50% dos votos válidos e Luiz Inácio Lula da Silva teve 44,61%, com diferença de cerca de 2,6 milhões de votos. Se, por um lado, a expectativa de segundo turno já fosse precificada pelo mercado, a diferença entre os candidatos foi surpresa.

Segundo analistas, a reação dos mercados deve ser diferente do observado em 2022. Um dos argumentos que sustenta essa visão é que boa parte do cenário eleitoral já estava precificado, mas que o avanço do candidato bolsonarista foi acima do esperado e acendeu expectativas do mercado de uma vitória de direita.

“Considerando nossas hipóteses de transferência de votos, seria muito difícil Lula vencer o segundo turno. Esperamos alta forte da bolsa, valorização do real e fechamento dos juros nominais e reais, com o mercado antecipando uma vitória de Flávio. A reação será guiada pela expectativa de maior disciplina fiscal no próximo governo”, afirma Felipe Balassiano, head de multimercados do ASA.

Mesmo antes do término da apuração, a visão de analistas já era de que a direção dos ativos, em um contexto de maior volatilidade esperada, seria determinada pela diferença entre o que ficasse constatado nas urnas e o que já foi precificado ao longo das últimas semanas.

Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, afirma que o destaque na apuração é a distância em relação às pesquisas, já que os últimos levantamentos indicavam empate técnico, com ligeira vantagem para Lula.

“Debates e novos eventos até o segundo turno ainda podem mexer no cenário, mas uma vantagem de cerca de 5 pontos percentuais dá, por ora, certo favoritismo a Flávio Bolsonaro.

A reação do mercado na segunda-feira (5), segundo Marcos Praça, diretor de análise de ZERO Markets Brasil, pode se apresentar inversa à observada em 2022, quando Lula encerrou o primeiro turno a frente de Jair Bolsonaro. Para Sung, a expectativa também é de reação positiva para o mercado, com real fortalecido e curva de juros, a fechar.

“Esse resultado pode estimular uma montagem ainda maior de posições compradas na Bolsa para o segundo turno, favorecendo um movimento de alta do Ibovespa. Esse movimento pode ganhar força com a avaliação do JP Morgan de que uma vitória de Flávio poderia destravar uma valorização de 28% da Bolsa”, afirma.

O entendimento é que a avaliação do banco estrangeiro poderia significar que investidores estrangeiros poderiam se ficar interessados em se posicionar no mercado brasileiro.

Ainda assim, o economista da Suno sustenta que a mudança que pode levar o Ibovespa para cima e o dólar para baixo no curto prazo precisa de medidas práticas que tenham economia como prioridade para se sustentar, em uma eventual vitória de Flávio.

“A pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel e na transição, com o ajuste das contas públicas e as demais diretrizes econômicas pautados, votados e colocados em prática. Sem isso, a expectativa se frustra e, em seis a doze meses, os ruídos podem voltar”, diz.

Quais ativos podem se valorizar?

Como explica Fernando Siqueira, head de Research da Eleven, a reação positiva deve acontecer em especial com empresas consideradas de “melhor qualidade”, que tenham endividamento maior e menor margem.

Entre os papéis que já apresentaram maior desempenho na semana passada, estão ações mais cíclicas e/ou mais alavancadas. É o caso de nomes como Movida (MOVI3), Grupo Simpar (SIMH3), Magazine Luiza (MGLU3) e Casa Bahia (BHIA3). “Acreditamos que esses nomes continuarão entre as maiores altas amanhã”, diz Siqueira.

Já no cenário pós-eleições, há outros nomes que podem apresentar crescimento. É o caso do Banco do Brasil (BBAS3), já que estatais historicamente são mais sensíveis ao ciclo político. O especialista cita também Assaí (ASAI3) e Ecorodovias (ECOR3), como exemplos de companhias alavancadas que poderiam ter aumento de lucro em caso de redução de juros.

Outros nomes são a top pick da Eleven, Ser Educacional (SEER3), por integrar setor muito cíclico. Equatorial (EQTL3), que mesmo com bons resultados e bons ativos, alavancagem segue elevada e, segundo o head, sofre com pressão de resultados e ações. E a Multiplan (MULT3), que, mesmo menos cíclica e mais defensiva, possui correlação alta com os juros de mercado.

Já investimentos no exterior podem sofrer pela apreciação do real. Aqui, a ressalva importante é que ativos que contam com hedge, ou seja, proteção cambial, não serão impactados.

Leonardo Mendes, financial advisor e economista da Manchester Investimentos, cita como mudança mais importante na curva de juros. A expectativa é de fechamento tanto nos vértices curtos quanto nos longos, com maior assimetria esteja justamente na ponta longa.

“É ali que está uma parcela importante do prêmio relacionado à trajetória da dívida pública, aos déficits primários e à percepção de risco fiscal. Uma mudança nessa percepção poderia produzir um fechamento mais expressivo desses juros”, afirma.

Isso também teria efeito direto sobre a renda fixa, como explica Mendes. Nessa linha, prefixados e títulos IPCA+ de duration mais longa tenderiam a se valorizar por marcação a mercado. “E a própria Bolsa seria beneficiada pela redução da taxa de desconto, principalmente nos ativos domésticos mais sensíveis à curva de juros”, diz.

Como fica o dólar?

A expectativa para o dólar, com o cenário que se desenhou no primeiro turno, abre expectativas de estabilização e, segundo Praça, até mesmo queda. Com a entrada de investidores estrangeiros na Bolsa, a dinâmica para o dólar deve ser impactada, já que o processo envolve maior fortalecimento do real (pelo ingresso da moeda estrangeira).

“Recentemente, mesmo com o fortalecimento da moeda americana frente a outras moedas, sua alta em relação ao real foi mais amena. Assim, ainda que o dólar continue se valorizando no mercado internacional, o fluxo de recursos associado a esse movimento eleitoral pode favorecer sua estabilização ou queda no Brasil”, afirma.