Trump, PCC e CV: o método por trás da classificação de facções como terroristas

Para Brian J. Phillips, pesquisador especializado em terrorismo e segurança internacional, existem objetivos domésticos e externos na estratégia da Casa Branca; confira a entrevista

Adecisão do governo Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs, na sigla em inglês) é, em parte, um gesto simbólico para convencer o público estadunidense de que o governo está “fazendo algo” no combate ao crime. Afinal, essa tem sido a estratégia da gestão do republicano que, desde o início de 2025, já tinha adicionado 26 novos grupos à lista, quando, na maioria dos anos desde a criação da lista, em 1997, apenas dois grupos eram adicionados anualmente.

 

Para Brian J. Phillips, professor de ciência política da Universidade de Essex, no Reino Unido, e pesquisador especializado em terrorismo e segurança internacional, existe uma intenção doméstica, mas o método também guarda outros objetivos. “O governo Trump utilizou o arcabouço do contraterrorismo para justificar ataques de mísseis contra embarcações que supostamente transportam drogas e para justificar a deposição do presidente da Venezuela. Nesse sentido, a classificação terrorista pode ser vista como um aviso de possíveis ações futuras”, pontua, em entrevista à Fórum.

 

O caso venezuelano, segundo Phillips, deveria preocupar líderes de toda a região. Mas o professor pondera que o Brasil está em uma situação diferente da Venezuela, marcada por décadas de animosidade com Washington e por uma presença expressiva de redes criminosas venezuelanas em território dos EUA.

 

“Às vezes, a classificação terrorista é usada como moeda de troca em negociações comerciais. Também pode ser feita para agradar alguns políticos locais — o que parece ser o caso no Brasil com os Bolsonaro. Geralmente não é uma declaração de guerra. Mas, após o caso Venezuela, os líderes evidentemente estão prestando atenção”, adverte.

 

Sobre o timing do anúncio, feito logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa Branca, Phillips aponta que “o momento da decisão parece um presente político a um aliado ideológico”. O pesquisador lembra que Trump já tentou interferir em eleições em outros países, como no caso de Nigel Farage no Reino Unido, e que a atual gestão da Casa Branca “preferiria um governo no Brasil que fosse mais ideologicamente alinhado a ele”.

Confira a entrevista, concedida por e-mail, abaixo:

Em suas análises, você aponta que já existem instrumentos legais, como a Lei Kingpin, para os Estados Unidos sancionarem organizações criminosas. O que essa escolha por classificar cartéis e facções como terroristas revela sobre os objetivos reais da política do governo Trump?

O uso da classificação terrorista para grupos criminosos é feito em parte por simbolismo — para convencer o público americano de que o governo está “fazendo algo”, que está fazendo tudo o que pode para combater o crime. No entanto, o governo Trump também deixou claro que a classificação terrorista pode ser usada para fornecer justificativa legal para escaladas militares.

O governo Trump utilizou o arcabouço do contraterrorismo para justificar ataques de mísseis contra embarcações que supostamente transportam drogas e para justificar a deposição do presidente da Venezuela. Nesse sentido, a classificação terrorista pode ser vista como um aviso de possíveis ações futuras.

A expansão da lista de FTOs foi usada para justificar mais de 100 mortes em ataques de mísseis e a captura de Nicolás Maduro, embora o Departamento de Justiça americano tenha abandonado, dois dias depois, a alegação de que o cartel que justificou a operação sequer existia. Esse precedente venezuelano representa um risco concreto para outros países da América Latina, como o Brasil?

As classificações terroristas dos EUA são um sinal para outros países de que os Estados Unidos estão priorizando determinados grupos — e militarizando sua abordagem em relação a eles. A captura de Nicolás Maduro pode ser vista como uma ameaça a outros líderes regionais: coopere com o contraterrorismo americano, ou você mesmo pode se tornar alvo do contraterrorismo.

A prisão de Maduro deveria preocupar outros líderes da região. No entanto, não está claro o quanto é provável que tal ação se repita. A relação EUA-Venezuela é produto de muitos fatores — uma enorme quantidade de petróleo na Venezuela, décadas de animosidade e uma presença substancial de redes criminosas venezuelanas nos Estados Unidos. O Brasil está em uma situação diferente.

Às vezes, a classificação terrorista é usada como moeda de troca em negociações comerciais. Também pode ser feita para agradar alguns políticos locais — o que parece ser o caso no Brasil com os Bolsonaros. Geralmente não é uma declaração de guerra. Mas, após o caso Venezuela, os líderes evidentemente estão prestando atenção.

No caso brasileiro, especialistas alertam que a classificação do PCC e do Comando Vermelho como FTOs pode transferir a cooperação policial do nível FBI e DEA para a lógica da CIA, prejudicando o acesso direto dos investigadores brasileiros às informações e inviabilizando parcerias em curso. Esse tipo de consequência prática é comum quando organizações criminosas são incluídas na lista de terroristas?

A classificação terrorista de grupos criminosos poderia trazer novos recursos para o combate ao crime. A CIA possui, por exemplo, enormes recursos de monitoramento de comunicações. No entanto, também é verdade que, historicamente, as instituições militares e de segurança nacional não têm sido tão eficazes quanto as agências nacionais de aplicação da lei no enfrentamento de criminosos. As abordagens militarizadas frequentemente têm o efeito contrário — se forem pesadas demais, a população local pode se alinhar aos criminosos em vez de apoiar os militares.

Além disso, a classificação terrorista parece exigir o envolvimento de instituições de política de contraterrorismo, que podem não ter o tipo de expertise e os relacionamentos necessários para enfrentar de forma eficaz o crime organizado.

Em artigos, você já observou que aliados históricos dos EUA não seguiram Washington na decisão de classificar organizações criminosas como terroristas e que alguns desses países foram na direção oposta, incluindo grupos de extrema direita em suas listas. Os EUA perderam influência e relevância no cenário global de combate ao terrorismo e às organizações criminosas internacionais?

Os Estados Unidos, sob o atual governo, estão cada vez mais isolados nas questões de terrorismo e crime organizado. Os países europeus não seguiram a abordagem americana de aplicar o contraterrorismo contra grupos criminosos. A Itália, por exemplo, conseguiu, por meio de uma abordagem policial, manter o crime em níveis baixos. Na América Latina, apenas países cujos governos são ideologicamente alinhados ao presidente Trump adotaram a abordagem da classificação terrorista.

O anúncio da designação do PCC e do Comando Vermelho como FTOs ocorreu logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro à Casa Branca, em um contexto de eleições presidenciais brasileiras em 2026. Considerando o padrão de uso político da lista de FTOs, é razoável interpretar essa decisão como uma tentativa de interferência eleitoral externa?

O atual presidente americano já tentou ajudar outros políticos estrangeiros em suas campanhas eleitorais, como Nigel Farage no Reino Unido. O atual governo dos EUA preferiria um governo no Brasil que fosse mais ideologicamente alinhado a ele, e enxerga isso em Flávio Bolsonaro.

De maneira geral, a decisão dos EUA de incluir grupos brasileiros na lista de FTOs é coerente com a política americana recente na região. Poderia ter acontecido com ou sem a visita de Bolsonaro. Portanto, isso pode ser visto como um esforço para influenciar as eleições brasileiras, mas também faz parte de um padrão mais amplo de tratar grupos criminosos latino-americanos como terroristas. No entanto, o momento da decisão — logo após a visita dos irmãos Bolsonaro — parece um presente político a um aliado ideológico.