Relatório da ALMT aponta que omissão do Estado agrava feminicídios em MT

Documento da Câmara Setorial do Feminicídio afirma que mortes de mulheres refletem falhas estruturais

Um relatório final da Câmara Setorial Temática (CST) sobre Feminicídio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) apontou que a recorrência de assassinatos de mulheres no Estado não decorre da falta de leis, mas da “não priorização da vida das mulheres” por parte do poder público. O documento sustenta que há uma estrutura estatal “omissa, seletiva e politicamente organizada”, incapaz de implementar políticas eficazes de enfrentamento à violência de gênero.

O relatório, com 139 páginas, foi elaborado no âmbito da Câmara Setorial criada pela ALMT após a tentativa frustrada de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Feminicídio. Conforme o documento, a CPI não avançou por falta do número necessário de assinaturas entre os deputados estaduais.

A CST foi presidida pela ex-deputada estadual Edna Sampaio, que assina a apresentação do relatório com críticas diretas à atuação do poder público diante da escalada da violência contra mulheres em Mato Grosso. Em um dos trechos mais contundentes, o documento afirma que o Estado se tornou “o mais perigoso para as mulheres” no Brasil.

O texto sustenta que o feminicídio não pode ser tratado apenas como caso policial, mas como consequência de falhas institucionais históricas. A análise desloca o debate para áreas como planejamento estatal, orçamento público, articulação entre municípios e efetividade das políticas públicas voltadas à proteção das mulheres.

“O problema de pesquisa se ancora na investigação das causas institucionais do feminicídio, considerando a atuação — e, sobretudo, a omissão — do Estado de Mato Grosso na formulação de programas, na alocação de recursos, na organização da rede de atendimento e na articulação entre os diferentes níveis de governo”, destaca trecho do relatório.

Omissão não pode continuar tendo um custo menor que salvar vidas de mulheres

O estudo utilizou dados de órgãos oficiais, auditorias do Tribunal de Contas do Estado (TCE-MT), além de informações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Atlas da Violência, IBGE e Ministério da Justiça.

Entre os setores avaliados pela CST estão Segurança Pública, Saúde, Educação, Assistência Social, Defensoria Pública, Ministério Público e Judiciário. O relatório aponta fragilidades no planejamento estatal, baixa integração entre os órgãos e falhas na execução orçamentária destinada às políticas de enfrentamento à violência contra a mulher.

Ao final, o documento faz um apelo para que o relatório não seja tratado apenas como mais um estudo institucional sem efeitos práticos.

“A omissão não pode continuar tendo um custo menor que salvar vidas de mulheres”, afirma o texto.