EUA não quer a carne brasileira: governo Trump abre investigação contra JBS, Tyson, Cargill e National Beef após preço da carne disparar e empresas passarem a controlar 85% do processamento bovino nos Estados Unidos

Investigação antitruste do governo Donald Trump amplia pressão sobre gigantes do setor de carnes nos Estados Unidos após disparada dos preços da carne bovina e avanço da concentração do mercado nas mãos de quatro grupos que dominam o processamento no país.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos confirmou uma investigação antitruste sobre o setor de processamento de carne bovina, em uma ofensiva do governo Donald Trump que mira JBS, Tyson Foods, Cargill e National Beef, empresas apontadas por autoridades americanas como responsáveis por cerca de 85% do processamento bovino no país.

A apuração ocorre em meio à alta dos preços da carne, à redução do rebanho bovino americano e ao aumento da pressão política sobre grandes frigoríficos.

Segundo dados do Federal Reserve de St. Louis, a carne moída 100% bovina custava US$ 6,752 por libra, equivalente a 453,6 gramas, em janeiro de 2026.

O procurador-geral interino Todd Blanche afirmou, em entrevista nesta segunda-feira (04), que o órgão já analisou cerca de 3 milhões de documentos e ouviu pecuaristas e produtores rurais no curso da investigação.

“Há muito trabalho que já foi feito e muito ainda a fazer. Estamos avançando o mais rápido possível”, disse Blanche, ao tratar da atuação do Departamento de Justiça sobre práticas concorrenciais no mercado de carnes.

Além da carne bovina, o governo americano também informou que deve anunciar um acordo relacionado à Agri Stats, empresa acusada de favorecer práticas anticompetitivas nos mercados de frango, carne suína e peru por meio de relatórios usados pelo setor.

Investigação contra frigoríficos ganha força nos Estados Unidos

A secretária de Agricultura dos Estados Unidos, Brooke Rollins, afirmou que o domínio das quatro maiores empresas reduziu as opções de comercialização para produtores de gado e ampliou a preocupação com a formação de preços no país.

Segundo Rollins, a concentração do processamento bovino saiu de 25% em 1977 para 71% em 1992 e chegou ao patamar atual de cerca de 85%, número usado pelo governo para justificar a nova frente de investigação.

Para a secretária, esse nível de controle cria um ambiente em que muitos pecuaristas ficam com alternativas limitadas para vender seus animais, em um mercado já pressionado por custos, seca e queda do rebanho.

JBS e empresas brasileiras entram no centro da disputa

 

A JBS, de origem brasileira, é uma das principais empresas citadas pelas autoridades americanas.

A National Beef também aparece na investigação e é controlada pela Marfrig, que passou a integrar a MBRF após a união com a BRF.

JBS e MBRF informaram que não comentariam a decisão do governo dos Estados Unidos.

Cargill e Tyson Foods também foram procuradas, mas não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.

Peter Navarro, conselheiro de comércio da Casa Branca, afirmou que metade das quatro maiores empresas do setor tem ligação com o Brasil e associou a pressão do lobby da carne a interesses brasileiros.

Navarro também declarou que parte da carne que poderia abastecer o mercado americano teria sido direcionada a outros destinos, citando a China como exemplo, sem apresentar novos dados públicos detalhados na ocasião.

Alta do preço da carne pressiona governo Trump

A investigação ganhou força depois que Trump acusou grandes frigoríficos de inflar artificialmente os preços da carne e pediu ao Departamento de Justiça uma apuração sobre possível conluio, manipulação de preços e práticas anticompetitivas.

A Casa Branca já havia citado JBS, Cargill, Tyson Foods e National Beef como alvos da ofensiva contra a concentração no setor, em comunicado divulgado em novembro de 2025.

Parlamentares republicanos também passaram a defender a investigação.

O deputado Jason Smith afirmou apoiar a apuração de possíveis práticas anticompetitivas na indústria de abate, sob o argumento de que produtores precisam de concorrência real e preços transparentes.

O Departamento de Agricultura divulgou imagem institucional em parceria com o Departamento de Justiça para reforçar a mensagem de combate à manipulação de preços, associando a investigação à proteção de consumidores e pecuaristas.

A pressão sobre os frigoríficos ocorre em um cenário de oferta apertada, rebanho menor e demanda ainda forte por carne bovina nos Estados Unidos, fatores que também são apontados por analistas e entidades do setor como parte da explicação para os preços elevados.

Ainda assim, o governo Trump sustenta que a elevada concentração entre poucos grupos pode ampliar o poder de mercado das empresas e prejudicar tanto produtores rurais quanto consumidores nas prateleiras dos supermercados.