Como Israel, um país minúsculo no deserto, transformou o mar em água potável, reciclou esgoto, encheu o Mar da Galileia de novo e hoje exporta tecnologia hídrica enquanto vizinhos secam sob calor, seca e medo

Minúsculo e semiárido, Israel virou laboratório mundial de água ao dessalinizar o Mediterrâneo, reciclar 94 por cento do esgoto, irrigar o deserto com 87 por cento de água reutilizada e bombear excedente de usinas para o Mar da Galileia em plena crise hídrica que atinge vizinhos como Irã e Iraque.

Em 2001 e 2002, Israel ainda dependia pesadamente do Mar da Galileia e de aquíferos limitados, consumindo cerca de 513 milhões de metros cúbicos por ano de suas fontes naturais. A partir de 2005, com a expansão de usinas de dessalinização e, em 2013, com a entrada em operação da planta de Sorek, o país acelerou uma virada histórica e reduziu esse consumo a apenas 25 milhões de metros cúbicos em 2018 e 2019.

 

Enquanto isso, a partir de 2010, a região ao redor se aprofundava em uma crise: Irã, Iraque, Síria, Turquia, Jordânia e Iêmen acumulavam reservatórios quase vazios, rios em retração e cidades à beira do racionamento. Nesse mesmo contexto, Israel passou a dessalinizar cerca de 2 milhões de metros cúbicos de água do mar por dia, estabilizou o nível do Mar da Galileia com um sistema reverso de bombeamento inaugurado em 2023 e consolidou a água como prioridade de segurança nacional.

Um deserto cercado por vizinhos à beira da seca

Israel enfrenta a crise hídrica com dessalinização, reciclagem de esgoto e envio de água ao Mar da Galileia, exportando soluções para regiões secas.
O Oriente Médio soma recordes de calor, rios que encolhem e lagos que desaparecem. No Irã, o próprio presidente alertou que, sem chuva, Teerã poderia ter de ser evacuada.

No Iraque, as águas do Tigre e do Eufrates não chegam nem à metade do volume histórico, e moradores de Basra são obrigados a beber água salgada.

Na Síria, depois de mais de uma década de guerra, a seca transformou antigas áreas agrícolas em campos de poeira.

 

Na Turquia, o recuo das águas subterrâneas na planície de Konya abriu crateras no solo, enquanto Istambul e Izmir se aproximam da escassez de água.

A Jordânia figura entre os países com menor disponibilidade hídrica per capita, e no Iêmen a água se tornou mais valiosa que o petróleo, sintetizando a gravidade da crise.

Nesse cenário regional de colapso, Israel aparece como anomalia hídrica.

Em vez de recuar, o país aumentou sua oferta de água potável, estabilizou reservatórios e ainda passou a exportar tecnologia de dessalinização e reúso.

 

A diferença não está na geografia, mas em décadas de investimento em ciência, infraestrutura e regulação voltadas a extrair o máximo possível de cada gota disponível.

De um país dependente do Mar da Galileia ao limite da escassez

Israel enfrenta a crise hídrica com dessalinização, reciclagem de esgoto e envio de água ao Mar da Galileia, exportando soluções para regiões secas.

Metade do território de Israel está sob clima semiárido, e o sul é dominado por um deserto com média anual de apenas 20 milímetros de chuva.

No norte, a precipitação gira em torno de 800 milímetros, caindo para cerca de 400 milímetros no interior leste.

Historicamente, Israel se apoiava sobretudo no Mar da Galileia e em aquíferos subterrâneos limitados para atender população, agricultura e indústria.

O crescimento populacional, a intensificação da agricultura e ciclos de seca cada vez mais severos levaram essas fontes ao limite no fim do século 20.

 

Os níveis do Mar da Galileia se aproximavam de marcas consideradas perigosas, e a retirada contínua de água ameaçava tanto o abastecimento quanto o ecossistema do lago.

Foi esse contexto que empurrou Israel a tratar a dessalinização não como opção ambiental, mas como necessidade estratégica de sobrevivência e segurança nacional.

Como Israel transformou o Mediterrâneo em água potável

A virada começou ainda nos anos 1960, quando o químico Alexander Zarchin desenvolveu um processo de dessalinização baseado em congelamento a vácuo e fundou a IDE Technologies em 1965.

A tecnologia inicial não era eficiente, mas abriu caminho para a adoção posterior da osmose reversa, que hoje domina o parque de usinas israelenses.

Em 1997, Israel inaugurou sua primeira usina de dessalinização de água do mar em Eilat.