
Dois ex-jogadores de carreiras distintas na Europa comandam hoje projetos com parâmetros totalmente diferentes, mas convergem por conta da longevidade. No final de outubro, o português completou cinco anos à frente do alviverde, algo completamente fora da curva para os padrões nacionais, e um compromisso que não vê data de validade. Já o brasileiro completou em setembro “apenas” um no comando do rubro-negro, mas, em se tratando deste clube, é um feito para um grupo muito seleto.
Duas na conta de Abel
Sob sua batuta, nomes como Gustavo Gómez, Raphael Veiga e Weverton — lesionado, não deve jogar — viraram ídolos, mas a maior parte do grupo se transformou. Heróis de títulos continentais, Breno Lopes e Deyverson seguiram em frente para outros clubes, assim como as joias da base Endrick e Estêvão. Vitor Roque, Flaco López e companhia chegaram. Muitas vezes, as ordens para reformulação precisam partir de um comandante de longa data, porque o longo tempo também pode atuar como vilão, por saturar as relações — até mesmo com a torcida.
Neste momento, o Palmeiras não é detentor de nenhum título, e a hostilidade recebida na eliminação diante do Corinthians, na Copa do Brasil deste ano, deixou mágoas explícitas no treinador. Mas nada que afete sua continuidade, mesmo que já tenha recusado algumas propostas, a mais concreta do Al-Sadd, do Catar, em 2024.
— Minha palavra vale mais que uma assinatura. Não precisei assinar em janeiro ou dezembro para dizer que continuo. Se sou diferente, poderia ter saído há muito tempo, mas decidir ficar pelo Palmeiras e pela minha família — disse na quinta-feira ao site ge. – A presidente (Leila Pereira) queria que eu ficasse, não tenho problema de dizer que vou continuar no Palmeiras, ponto. Pelo cinco anos de relações que temos, não preciso de contrato para dizer se continuo ou não continuo.
As críticas em torno do trabalho do treinador costumam girar em torno da dificuldade de formar um repertório criativo e de um jogo demasiado defensivo. Isso ficou mais em evidência neste momento pelo forte investimento feito no elenco e pela sequência de cinco jogos sem vitórias, que pode ter custado o título do Brasileirão. Mas se tem algo que não deixa de afetar a crença do palestrino é o lema “Cabeça fria, coração quente”. Especialmente, em finais, quando a equipe parece ter energia inesgotável. E isso é mérito de Abel.
— Sinto o carinho da torcida desde o primeiro dia que cheguei — disse Abel ontem em Lima, em entrevista coletiva. — É quase como um namoro, casamento que vai se construindo. Falamos de 15 finais, 10 títulos ganhos, mais uma final. Construí uma relação muito forte, e hoje esse carinho que é recíproco, aconteça o que acontecer no futuro.
Um ano à frente do Fla
Para Filipe Luís, a decisão está totalmente envolvida em novidades. Lançado como técnico profissional há pouco mais de um ano, o ex-lateral-esquerdo estava em campo nas conquistas de 2019 e 2022 e no vice de 2021 para o próprio Palmeiras. Agora, é a vez de tentar levar o Flamengo a um título de Libertadores como comandante de um elenco que ainda tem muitos ex-companheiros.
Esse conhecimento do vestiário é algo que relativiza o tempo para o jogador que desembarcou no Rio em 2019, após anos de sucesso em equipes europeias como o Atlético de Madrid. Desde aquele momento, Filipe já demonstrava o desejo de se tornar técnico. A transição foi mais repentina e natural do que muitos imaginavam.
Antes dele, apenas Jorge Jesus, Zé Ricardo, Vanderlei Luxemburgo e Ney Franco. A tendência é que ele também seja o primeiro desde Luxa, em 2011, a abrir e fechar o ano no cargo.
Entre os fatores que explicam o sucesso de Filipe, certamente um dos principais é o vasto conhecimento tático e o perfil estudioso que carrega desde a época de jogador. Assim que assumiu o Flamengo, foi abraçado pelo vestiário e fez a equipe corresponder em campo com um jogo mais ofensivo, próximo ao que a torcida sempre exige. O fato de ser um ídolo em campo dando continuidade ao seu legado cria um fator de identificação.
“Olho para a frente”
Ainda assim, tempo é algo em que ele ainda pode tropeçar. A falta de experiência na função já foi cobradas em algumas situações que só aparecem com a vivência, e as críticas aparecem principalmente por uma suposta falta de soluções dentro de jogos específicos e uma “teimosia” por se ater a jogadores que cumprem funções táticas, mas não agradam tanto pelo desempenho.
— E o futebol é assim: rápido — disse ele ontem em Lima. — Acredito muito em mim e no que eu faço, na ambição que eu tenho. Por isso que não olho para trás, só para a frente.


