
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou na quarta-feira (29) que Washington retomará imediatamente os testes com armas nucleares. Segundo o republicano, a decisão foi motivada pelo fato de outros países estarem conduzindo programas semelhantes. O anúncio reacendeu o debate sobre a corrida armamentista global e levantou dúvidas sobre as razões que levaram ao fim das atividades nucleares, além de questionamentos sobre quais potências mantêm os maiores arsenais do mundo.
O primeiro teste ocorreu em 16 de julho de 1945, no deserto de Alamogordo, no Novo México, durante o chamado Projeto Manhattan. O episódio, conhecido como “Trinity”, marcou o início da era atômica e antecedeu o uso das bombas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Em seguida, a União Soviética detonou sua primeira bomba em 1949, iniciando uma disputa que se estendeu por toda a Guerra Fria.
As explosões nucleares tinham o objetivo de medir a potência e a eficiência das ogivas. Foram quatro os principais tipos de testes: atmosféricos, subterrâneos, subaquáticos e em alta altitude. Os mais antigos, realizados na superfície, espalhavam grande quantidade de material radioativo e deixaram sequelas em populações civis próximas.
A preocupação com os impactos ambientais e à saúde pública levou à assinatura do Tratado de Proibição Parcial de Testes Nucleares, em 1963. O acordo proibiu explosões no ar, no espaço e no mar, mas permitiu as subterrâneas, que continuaram a ocorrer até os anos 1990. O Tratado de Proibição Completa de Testes Nucleares (CTBT), firmado em 1996, buscou eliminar totalmente as detonações, mas ainda não entrou em vigor porque potências como Estados Unidos, China, Irã e Coreia do Norte não o ratificaram.
Segundo a Organização das Nações Unidas, entre 1945 e 1996, os Estados Unidos realizaram 1.032 testes nucleares e a União Soviética 715. A França fez 210, o Reino Unido 45 e a China também 45. Após o CTBT, apenas dez testes foram oficialmente registrados, todos conduzidos por Índia, Paquistão e Coreia do Norte.
O último teste nuclear americano foi realizado em 1992. Desde então, Washington e Moscou passaram a investir em simulações computacionais e experimentos sem detonação para garantir a eficácia de seus arsenais. Essa pausa marcou o fim de uma era de explosões em larga escala, que havia deixado regiões inteiras contaminadas por radiação, como o Atol de Bikini, no Pacífico, e Semipalatinsk, no Cazaquistão.
A interrupção dos testes não significou o fim das armas nucleares. Hoje, a Federação de Cientistas Americanos estima que existam cerca de 12 mil ogivas em todo o mundo. A Rússia detém o maior número, com cerca de 5.459, seguida pelos Estados Unidos, com 5.177. Em terceiro lugar está a China, com aproximadamente 600. Outras potências nucleares incluem França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Israel e Coreia do Norte.
Apesar da redução dos arsenais desde o fim da Guerra Fria, Rússia, Estados Unidos e China continuam modernizando seus sistemas de ogivas e mísseis. Moscou testou recentemente armas de cruzeiro e torpedos de propulsão nuclear, enquanto Washington desenvolve novos mísseis balísticos intercontinentais. A China, por sua vez, amplia seu programa nuclear com novos silos subterrâneos e ogivas de longo alcance.
A retomada dos testes, como a defendida por Trump, representa um possível rompimento da moratória informal que vigora desde os anos 1990. Especialistas alertam que uma nova rodada de detonações poderia estimular outros países a fazer o mesmo, colocando em risco décadas de esforços diplomáticos para limitar a proliferação.
Para o analista Daryl Kimball, da Associação de Controle de Armas, qualquer movimento nessa direção teria impacto direto sobre a estabilidade global. “Se uma potência voltar a testar armas nucleares, as demais não hesitarão em seguir o mesmo caminho. Isso abriria uma nova corrida armamentista e colocaria em xeque todos os acordos de contenção firmados até agora”, afirmou à CNN americana.


