
De terno, Nelson Wilians atravessa um hangar acompanhado de outro homem. Um vídeo publicado no TikTok em abril mostra a cena. Ele passa diante de um helicóptero verde dos Carabineros de Chile até chegar ao objeto de desejo: um helicóptero da montadora italiana Leonardo, modelo AW169, nas cores branco e azul, de matrícula PS-DNW. As linhas elegantes da fuselagem escondem uma cabine de assentos de couro bege, fones individuais, ar-condicionado de zona dupla e sistema antivibração. O cockpit digital reúne telas largas que exibem informações de voo. Sorridente, o advogado registra com o celular a própria aeronave, com valor estimado em 40 milhões de reais. Em seguida, ergue uma taça de champanhe no interior da cabine, como quem celebra mais um troféu de luxo.
Há cerca de duas semanas, a aeronave esteve cercada por um contexto menos glamouroso: foi confiscada pela Polícia Federal, na Operação Sem Desconto, que investiga a roubalheira de bilhões de reais contra aposentados e servidores do INSS. Com isso, nenhum plano de voo estará autorizado e deve permanecer no hangar onde está guardada.
A PF investigará se a venda foi uma manobra para ocultar patrimônio do advogado.
Na decisão em que pediu a busca e apreensão dos bens de Wilians, Mendonça destacou o trecho de uma conclusão da PF:
“A relação entre Nelson Wilians e Maurício Camisotti revela-se além dos limites de uma mera vinculação profissional entre cliente e advogado, uma vez que Nelson Wilians figura como possível beneficiário dos descontos associativos da AMBEC, demonstrava interesse em obter informações acerca da investigação em curso e permanece efetuando repasses financeiros em favor de Maurício. Nesse cenário, apresenta-se como elo de intermediação na circulação de valores provenientes de atividades ilícitas.”
A piauí vem questionando Wilians sobre o helicóptero desde a última sexta-feira, mas ele só enviou uma resposta à reportagem após sua publicação, na noite de quarta-feira.
Santiago André Schunck, advogado do NWADV, enviou a seguinte nota de esclarecimento:
Enquanto a Polícia Federal segue analisando os materiais apreendidos na Operação Sem Desconto, a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS virou palco de confrontos mais diretos entre acusação e defesa. Na sessão desta semana, a comissão prendeu em flagrante um depoente — o economista Rubens Oliveira Costa — acusado de falso testemunho, que foi liberado pouco depois.
O foco agora se volta ao depoimento de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, marcado para a manhã de 25 de setembro de 2025. Antônio prestou depoimento à PF nesta semana e, em sua fala, negou irregularidades. Segundo a piauí apurou, o “Careca do INSS” afirmou que prestava serviços para associações e que desconhecia irregularidades cometidas por elas. Reconheceu ser dono de uma empresa de telemarketing, mas disse que seu papel era apoiar associados, e não captar filiados de modo ilegal. A linha de defesa mantém o argumento de que delitos, se existirem, teriam sido praticados por outras entidades e não por ele diretamente. Essa deve ser a tônica de seu depoimento nesta quinta-feira, na CPMI.
*A versão inicial do texto dizia erroneamente que Wilians é acusado no caso. Ele é, na verdade, suspeito, como consta na versão atual.


